segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
OSCAR, NO MUNDO E NO SÉCULO
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
O BRASILEIRO JORGE AMADO
segunda-feira, 9 de julho de 2012
GABRIEL GARCIA MARQUES. O TRISTE OUTONO DE UM GÊNIO

Entre outras dívidas que tenho para com a memória de Jorge Amado está a de ele me ter apresentado, em 1972,
Gabriel foi extremamente amável e me disse que éramos colegas. Colegas no jornalismo, o que o autorizava a ver-me também como escritor. O bom jornalismo é sempre boa literatura, disse. E quem não sabe escrever, não faz literatura, nem jornalismo. Só pode ser considerado jornalista ou escritor aquele que vive do que escreve.
Ele me surpreendeu pelo bom humor. Antes Astúrias me impressionara pela sobriedade. Enfim, entre um e outro, havia quase trinta anos de diferença.
Não o vi em Praga, quando ali encontrei, em dezembro de 1968, Carlos Fuentes e Julio Cortazar. Ele, naquela noite - que foi a do AI-5 no Brasil - era convidado especial de Milan Kundera. Eles, juntamente com Jean Paul Sartre, haviam sido convidados pelos intelectuais tchecos, para assistir à premiére de Les Mouches, a peça do escritor francês.
Leio, agora,
Gabriel está com demência senil, um dos sinônimos da Doença de Alzheimer. Com a memória, ele perdeu também as letras. Não escreverá mais - de acordo com a dolorosa conclusão do irmão. Mas ainda o teremos com vida: é o consolo que nos dá Jaime Garcia Márquez. Enquanto procurar o passado, Gabriel, de um mundo que se esvazia, estará voltando ao mundo que criou.
Em Roma, em 1987, José Saramago, outro que deixou o jornalismo pela literatura, me disse que gostaria de morrer quando estivesse buscando a frase ideal para colocar na boca de um personagem estúpido: “quando não conseguir mais isso, estará na hora de morrer”. Mas Saramago era homem de uma Europa sempre angustiada. Gabriel é homem de nossa América, e, por isso, insiste em recuperar a vida que se esmaece, porque na vida, em nossa geografia humana, sempre habita a alegria da esperança.
sexta-feira, 22 de julho de 2011
MEMÓRIA DE JANGO

Não tive ainda a oportunidade de ler o livro do professor Jorge Ferreira sobre o Presidente João Goulart, mas a simples evocação do grande brasileiro me conduz a algumas lembranças pessoais de um homem solidário com seu povo e que conquistava todos os que o conheciam.
Em 1953, logo depois de nomeado Ministro do Trabalho, Jango visitou Belo Horizonte. Fui encarregado pelo Diário de Minas, onde trabalhava, de acompanhá-lo, em seus contatos oficiais e com os líderes sindicais mineiros. Jango vestia um terno branco, de linho irlandês
S120 (para os que ainda se lembram daquele tempo). Em determinado momento alguém lhe fez um pedido, ele não encontrou caneta nem papel em seus bolsos e apelou para o jovem repórter que se encontrava ao lado. Ofereci o que tinha, uma folha de papel e uma caneta Sheaffers, de tinta azul. Por uma dessas imprevisíveis fatalidades, a caneta começou a soltar a tinta, sujando as mãos do Ministro. Jango, em ato contínuo, limpou suas mãos no próprio paletó, até então imaculadamente limpo. Fiquei constrangido, e ele me disse que não me incomodasse - continuaria usando a caneta – e retirou do bolso um lenço, passando a usá-lo para limpar os dedos, a cada vez que escrevia.
Em 1975, estive
– Tu me deves um terno de linho irlandês, lembrou para o meu desconforto, e sorriu. Como eu estivesse em companhia de Wania, minha mulher, cujo sofrimento nos meses que se seguiram ao golpe ele conhecia, bateu-me afetuosamente no ombro, enquanto a olhava, e disse: - Se os militares te fazem a vida impossível, vem com tua família. Na estância haverá um lugar para todos, e não faltará uma ovelha para carnear.
Foi a última vez que o vi. Fiquei preocupado porque ele mantinha sempre à mão comprimidos de trinitrina: sofria de cardiopatia, e o remédio, poderoso, serviria para, em caso de urgência, dilatar os vasos até o socorro médico. No ano seguinte, em dezembro de 1976, quatro meses depois de Juscelino, Jango morreria no exílio. Cinco meses mais tarde, em maio de 1977, seria a vez de Lacerda. Tancredo duvidava daquela coincidência: em menos de um ano, os três morreriam, a seu ver, de forma estranha. Segundo informações posteriores, um agente, a serviço da Operação Condor, teria trocado o vasodilatador por outra droga, o que teria matado JANGO em sua estância argentina.
Jango não escolhera seu destino. Filho de rico estancieiro, ao aproximar-se de Vargas, comoveu-se com a vida austera e discreta do ex-presidente, confinado em sua fazenda do sul. Não era um intelectual, como Lacerda, nem um visionário, como foi Juscelino, com os quais tentou a famosa Frente Ampla contra a ditadura. Aprendera, com Getúlio, a respeitar os trabalhadores e dava real importância às organizações sindicais, como contraponto às sólidas e poderosas instituições patronais.
Em 1954, ao cobrir os fatos que se seguiram à morte de Vargas, vi quando Jango – que morava em um hotel de Copacabana – chegou ao Catete, tirou do bolso um documento e leu em silêncio, o rosto tenso. Provavelmente se tratava de cópia da carta-testamento que Getúlio lhe entregara antes de terminar a reunião ministerial, da noite anterior, com a observação de que se tratava de um assunto a ser resolvido no dia seguinte – como se soube depois. Essa foto ilustrou, se não me falha a memória, a matéria que redigi sobre os fatos, e foi publicada na edição de 26 de agosto do Diário de Minas.
Ele estava desolado, como o filho que perde o pai, o viajante que perde o caminho. Mas, no dia seguinte, logo depois do sepultamento de Getúlio,
Jango tinha uma visão de Estado que continua válida até hoje. Se ele houvesse conseguido realizar as reformas de base – principalmente a agrária e a bancária – o Brasil teria chegado a seu futuro mais cedo. Os trabalhadores do campo escapariam das brutais condições impostas pelo latifúndio, aumentaria a produção de alimentos e, como ocorreu em outros países, seria ampliado o mercado interno para a indústria nacional. A reforma bancária colocaria ordem no sistema financeiro – providência a cada dia mais necessária, aqui e em todas as partes. O golpe de 1964 atrasou o processo de construção nacional, que só foi retomado com Itamar, para em seguida frustrar-se durante oito anos, e ser retomado por Lula, com sua política social que libertou milhões de brasileiros da miséria.
sábado, 2 de julho de 2011
O HOMEM DIANTE DA MORTE

ROSA E OS SERTÕES

A morte de Aracy Guimarães Rosa faz-me retornar aos sertões mineiros, transfigurados pela narrativa do grande escritor. Quando avançava a construção de Brasília, e isso coincidia com o surpreendente êxito de seu livro mais conhecido, o engenheiro e político Israel Pinheiro, homem prático, disse que a nova capital acabaria com o sertão de Guimarães Rosa. Ele fundava o seu juízo na realidade geográfica: as mais fortes passagens do grande romance se localizam na margem esquerda do São Francisco e avançam por Goiás, subindo os afluentes ocidentais do grande rio.
O progresso, previu Israel, transformaria os costumes e a economia da região. É certo que muita coisa mudou. A civilização do couro, como atiladamente Affonso Arinos a localizara ali, foi substituída pelo agronegócio, muito mais rendoso do que a pecuária extensiva. A velha vida rural, centrada nos pequenos povoados e fazendas, se reduz, cada dia mais, às propriedades pequenas e médias, de exploração familiar, ou quase familiar, enquanto se estendem as grandes plantações de soja e milho, fertilizadas e molhadas pela irrigação artificial. Não há mais carros de bois, a não ser como adorno diante das sedes das propriedades rurais. Os bois de lida, que puxavam arados e outros implementos, desapareceram. Os cavalos ainda são úteis, mas apenas dentro das propriedades, ou como animais de estima, não mais para as viagens, ainda que curtas. O roceiro cedeu seu lugar ao operário, que manobra as pesadas máquinas agrícolas, e, no cuidado dos bois confinados, moem grãos e gramíneas, alimentam os cochos, despacham as reses gordas para os frigoríficos. Não há mais vaqueiros, nem comitivas, como a que ele acompanhou há quase 60 anos.
Guimarães acompanhado do fotógrafo Eugênio Silva, viajou pelo Urucuia, pela primeira vez, em 1952. Não há notícia de que o haja cruzado antes, embora tenha nascido em Cordisburgo, no vale do grande rio. Foi nessa viagem que ele pôde ver de perto os vastos gerais do Oeste e conhecer suas grandes figuras humanas, como Manuelzão, que o impressionaria pelo porte e pelo saber. Mas o verdadeiro grande sertão, que ele descreveria em sua obra literária, Guimarães já o trazia na mente.
O grande escritor tinha o talento de repórter. Médico da Força Pública de Minas, pôde vasculhar os arquivos do 9º Batalhão de Caçadores, sediado em Barbacena, e do 3º, de Diamantina. Nesses arquivos soube da existência de personagens como os Militão e os Guerreiro, famílias adversárias do Médio São Francisco, e dos grupos de jagunços que percorriam a região nos primeiros anos do século 20, sob o comando de chefes políticos que retrataria com os nomes literários de Medeiro Vaz, Joca Ramiro, Zé Bebelo. Médico de roça, em Itaguara, no Vale do Paraopeba, outro afluente do São Francisco, Guimarães pôde penetrar na genuína alma mineira, que ele mostrará nos contos de Sagarana (principalmente em “O Duelo”). A visão quase humana dos animais, como em “O Burrinho Pedrês” e “Conversa de Bois” faz parte da transcendentalidade mineira do Alto São Francisco. A linguagem surpreeendente de “Corpo de Baile” e “Grande Sertão” não é o traço mais profundo da literatura de Rosa. Ainda que ele não tivesse a sua extraordinária cultura literária, sua obra teria sido da mesma forma monumental. Mais do que tudo, Guimarães foi um interessado no homem, que, nos sertões, é obrigado a ter um caráter mais nítido, a viver e a morrer com fé, paixão e coragem.
É uma pena que a viúva de Guimarães tenha sobrevivido ao grande escritor em completo recolhimento. Faltou, em tudo o que se disse sobre o grande escritor, o melhor depoimento, que seria de Aracy, sua discreta companheira por quase trinta anos.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
COMO SE MATA UM POETA
Ali recolhido, Lorca sabia vagamente do que estava ocorrendo à noite, quando Luis Rosales lhe dava informações. Ele parecia arrependido de não ter fugido para mais longe: a violência dos franquistas na Andaluzia era mais exacerbada do que no resto do país, Desde a manhã de 18 de julho, a guarnição militar de Sevilha se encontrava sob o comando de Queipo de Llano. A República se perdera nas divisões internas, a partir do assassinato de Calvo Sotelo, e hesitara naquelas primeiras horas do alçamento do Exército.
Federico, segundo se sabe, nada escreveu nos 11 dias em que esteve na casa dos Rosales. Sua mente .caminhava entre A casa de Bernarda Alba, edificada com sua emoção, e as próprias lembranças. Aos 38 anos, depois de vida intensa sob o aplauso do mundo, centro de um grupo em que brilhavam Buñuel, Dali, Rafael Alberti, Miguel Hemandez e Neruda, o criador de Romancero gitano, La casada infiel e Bodas de sangre estava com os olhos vazios. Sua carreira durara 19 anos apenas, mas o fizera o maior dos poetas espanhóis, desde o século de Cervantes.
Preso na tarde de 16 de agosto, Lorca foi levado para a sede do governo civil. Na manhã do dia 18 ou 19 (a data não é precisa) chamaram-no. Pressentiu o fim. Pediu um padre, mas o sacerdote já se fora, informado de que não haveria execuções naquela manhã. Nas cercanias de Granada, entre Viznar e Alfacar, ele foi fuzilado junto com três outros. Um de seus companheiros era o professor primário Dióscoro Gonzalez, que usava muletas. Lorca amparou-o, em seu próprio ombro, para que morresse de pé.


